Só não tem mais artigos diários deste tipo porque não tenho tempo
http://oglobo.globo.com/jornal/Bairros/Tijuca/193730617.asp
Rio, 23 de março de 2006
Versão impressa
Marcas de uma guerra diáriaPor Gian Amato
gian.amato@oglobo.com.br
Os reflexos de confrontos entre a polícia e traficantes do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, deixam marcas mais profundas do que as feitas por balas perdidas em paredes e janelas. Quem mora ou trabalha na área apelidada por moradores de “Nova Bagdá“ é obrigado a viver em estado de tensão. Na Rua Visconde de Santa Isabel, paralela ao morro, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a Escola Municipal Jornalista Assis Chateaubriand e o Hospital do Câncer IV, uma unidade do Instituto Nacional do Câncer (Inca), são alguns dos imóveis constantemente atingidos.
O alcance das balas perdidas vai além do ponto crítico. Na Rua Barão de Cotegipe, que fica a menos de 500 metros do morro, também existem sinais evidentes do problema. Numa cobertura, por exemplo, o episódio mais recente descrito por seus moradores ocorreu há aproximadamente um ano em plena luz do dia.
— Levei a minha filha à escola e quando voltei encontrei um buraco na janela e uma bala no chão. Desde aquele dia, sempre que começa um tiroteio, nós nos escondemos no quarto da minha filha, nos fundos, onde não há vista para o morro — conta uma moradora que pediu para não ser identificada.
Na Escola Municipal Jornalista Assis Chateaubriand, uma funcionária compara os confrontos entre policiais e bandidos com as guerras que vê nos noticiários de televisão.
— Os que trabalham aqui precisam estar sempre alertas. Parece que estamos mesmo numa guerra; que aqui é a “Nova Bagdá”. Já recolhi mais de cem balas e o muro dos fundos está todo furado — descreve ela.
Mãe de uma deficiente auditiva, Eva Maria Ferreira dos Santos mora em Maricá e traz a sua filha todos os dias a uma instituição beneficente de assistência social que funciona na Rua Visconde de Santa Isabel. Ela diz que já presenciou vários confrontos.
— Sinto medo de deixar a minha filha estudando aqui, mas não tenho escolha. Quando acontece um conflito na noite anterior, eu nem venho ao Rio no dia seguinte — diz.
Em dezembro do ano passado, uma estudante de nutrição da Uerj cruzou à noite, dentro de um ônibus, a Rua Visconde de Santa Isabel em meio a um tiroteio.
— Eu estava passando pela rua quando começou o tiroteio. Eu me joguei no chão e passei por aquele trecho abaixada no corredor do ônibus. Quando saltei, em outra rua, ainda pude ver as balas cruzando o céu — recorda a universitária Lara de Paula Fonseca.
Nem mesmo a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) está livre do fogo cruzado. O delegado titular, Luiz Alberto Cunha de Andrade, sabe que está diante de um barril de pólvora devido ao risco de que a carceragem da delegacia, com cerca de cem presos, possa sofrer tentativas de invasão.
— Os traficantes podem tentar invadir a delegacia à noite para resgatar presos. Por isso, nós construímos um paredão de seis metros de altura que separa a delegacia do morro e também cercamos a carceragem com grades por todos os lados — informa o delegado.
De acordo com ele, durante os confrontos os tiros disparados do morro passam sobre a DRE e atingem edifícios do outro lado da rua.
— Quando a Polícia Militar faz uma operação no morro, há troca de tiros. Eles (traficantes) já desceram até a rua, por um dos acessos do morro, ao lado do escola, armados com fuzis para demonstrar poder — diz o delegado.
Segundo o comandante do 6 Batalhão da Polícia Militar (Tijuca), tenente-coronel Álvaro Rodrigues Garcia, a Polícia Militar realizou mais de 50 operações no Morro dos Macacos no período de um ano.
— Toda vez que estamos lá tem confronto. Eu gostaria que isso não acontecesse devido ao sofrimento que causa à população, mas não posso evitar. Mas uma coisa é certa: não existem tiros a esmo por parte dos policiais — ressalta Garcia.
Rio, 23 de março de 2006
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Marcas de uma guerra diáriaPor Gian Amato
gian.amato@oglobo.com.br
Os reflexos de confrontos entre a polícia e traficantes do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, deixam marcas mais profundas do que as feitas por balas perdidas em paredes e janelas. Quem mora ou trabalha na área apelidada por moradores de “Nova Bagdá“ é obrigado a viver em estado de tensão. Na Rua Visconde de Santa Isabel, paralela ao morro, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a Escola Municipal Jornalista Assis Chateaubriand e o Hospital do Câncer IV, uma unidade do Instituto Nacional do Câncer (Inca), são alguns dos imóveis constantemente atingidos.
O alcance das balas perdidas vai além do ponto crítico. Na Rua Barão de Cotegipe, que fica a menos de 500 metros do morro, também existem sinais evidentes do problema. Numa cobertura, por exemplo, o episódio mais recente descrito por seus moradores ocorreu há aproximadamente um ano em plena luz do dia.
— Levei a minha filha à escola e quando voltei encontrei um buraco na janela e uma bala no chão. Desde aquele dia, sempre que começa um tiroteio, nós nos escondemos no quarto da minha filha, nos fundos, onde não há vista para o morro — conta uma moradora que pediu para não ser identificada.
Na Escola Municipal Jornalista Assis Chateaubriand, uma funcionária compara os confrontos entre policiais e bandidos com as guerras que vê nos noticiários de televisão.
— Os que trabalham aqui precisam estar sempre alertas. Parece que estamos mesmo numa guerra; que aqui é a “Nova Bagdá”. Já recolhi mais de cem balas e o muro dos fundos está todo furado — descreve ela.
Mãe de uma deficiente auditiva, Eva Maria Ferreira dos Santos mora em Maricá e traz a sua filha todos os dias a uma instituição beneficente de assistência social que funciona na Rua Visconde de Santa Isabel. Ela diz que já presenciou vários confrontos.
— Sinto medo de deixar a minha filha estudando aqui, mas não tenho escolha. Quando acontece um conflito na noite anterior, eu nem venho ao Rio no dia seguinte — diz.
Em dezembro do ano passado, uma estudante de nutrição da Uerj cruzou à noite, dentro de um ônibus, a Rua Visconde de Santa Isabel em meio a um tiroteio.
— Eu estava passando pela rua quando começou o tiroteio. Eu me joguei no chão e passei por aquele trecho abaixada no corredor do ônibus. Quando saltei, em outra rua, ainda pude ver as balas cruzando o céu — recorda a universitária Lara de Paula Fonseca.
Nem mesmo a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) está livre do fogo cruzado. O delegado titular, Luiz Alberto Cunha de Andrade, sabe que está diante de um barril de pólvora devido ao risco de que a carceragem da delegacia, com cerca de cem presos, possa sofrer tentativas de invasão.
— Os traficantes podem tentar invadir a delegacia à noite para resgatar presos. Por isso, nós construímos um paredão de seis metros de altura que separa a delegacia do morro e também cercamos a carceragem com grades por todos os lados — informa o delegado.
De acordo com ele, durante os confrontos os tiros disparados do morro passam sobre a DRE e atingem edifícios do outro lado da rua.
— Quando a Polícia Militar faz uma operação no morro, há troca de tiros. Eles (traficantes) já desceram até a rua, por um dos acessos do morro, ao lado do escola, armados com fuzis para demonstrar poder — diz o delegado.
Segundo o comandante do 6 Batalhão da Polícia Militar (Tijuca), tenente-coronel Álvaro Rodrigues Garcia, a Polícia Militar realizou mais de 50 operações no Morro dos Macacos no período de um ano.
— Toda vez que estamos lá tem confronto. Eu gostaria que isso não acontecesse devido ao sofrimento que causa à população, mas não posso evitar. Mas uma coisa é certa: não existem tiros a esmo por parte dos policiais — ressalta Garcia.

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